Proselitismo, o evangelho inconveniente - da mensagem ao sistema: como a fé virou estrutura. (#05)
- Acir Costa Filho
- 23 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: 2 de ago.
Por muitos anos eu me considerei um péssimo evangelista. E por muito tempo eu me orgulhei disso. O evangelismo, da maneira como me foi apresentado, e tantas vezes vi ser realizado, sempre me incomodou. Os evangelistas eram quase sempre inconvenientes. E suas abordagens, eu as considerava frequentemente invasivas, presunçosas e embaraçosas.
A cena clássica do evangelista de terno pregando na praça, anunciando o fim do mundo enquanto alerta a todos para que se “arrependam enquanto há tempo”, é pra mim o símbolo máximo desse incômodo - e motivo de vergonha alheia.
Mas, se por um lado tinha uma série de coisas que, assim como essa, me incomodavam a respeito do “Evangelho”, por outro eu continuava a me alegrar com o resultado da minha busca por construir minha fé sobre um lugar sincero, através das minhas próprias observações, experiências e dúvidas. Embora eu ainda oscilasse entre me sentir livre - para lutar com as minhas questões - e me retrair, temendo estar ultrapassando limites que pudessem ferir e talvez até macular a minha fé, esse processo produzia em mim uma sensação de estar construindo uma relação com Deus cada vez mais profunda e interessante.
Sendo assim, o que fiz com aquele incômodo a respeito do evangelismo foi me distanciar daquele termo por um pouco e colocá-lo na minha longa lista mental de termos e temas sobre os quais procuro formular boas perguntas e me manter atento, confiando que, assim como já experimentei tantas vezes, em algum momento eu encontraria um caminho para aquelas respostas e daria novos passos em sua direção.
Até que há alguns anos atrás eu estava lendo um livro maravilhoso, “O Futuro da Fé”, que retrata um total de 12 encontros que ao longo de um ano o Papa Francisco e o sociólogo francês Dominique Wolton tiveram e em que conversaram sobre alguns dos principais debates da atualidade e da existência humana, e então me deparei com uma breve menção do Papa sobre o proselitismo religioso. Ao vê-lo condenar tal prática e se colocar contra esse tipo de comportamento, tive a sensação de que estava encontrando uma importante resposta pra mim ali.
Reconheço que talvez seja ignorância da minha parte, mas assumo que nunca tinha ouvido falar sobre proselitismo. Contudo, eu descobri depois que essa é uma palavra praticamente desconhecida no ambiente religioso evangélico, mesmo entre lideranças e crentes de longa data.
E bem, se você, como eu, não conhecia seu significado, aqui está ele:
Proselitismo é a busca ativa, e muitas vezes coercitiva (que impõe pena, intimidação e/ou repressão), pela conversão de alguém a uma determinada crença ou religião.
Segundo o dicionário Michaelis, é a “tentativa persistente de persuadir ou convencer outras pessoas a aceitar suas crenças, em geral relativas à religião ou à política."
Quando eu li essas definições, minha reação foi uma mistura de surpresa, curiosidade e alívio.
Sim.. porque aquela era a perfeita descrição daquilo que por anos me incomodava!
Era a confirmação dos inconvenientes do caminho! :)
E era a descoberta de que o evangelismo que me foi ensinado era, na verdade, proselitismo travestido de evangelismo!
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Além dessa descoberta ter sido valiosa pra mim, ao me levar a “fazer as pazes” com o evangelismo, ela me levou a uma série de outras perguntas e reflexões que decidi reunir em três "blocos" aqui, com a expectativa de que lhe possam ser úteis.
1 - Qual é a origem do proselitismo e por que ele acontece? ;
2 -Se o evangelismo que nos foi apresentado era, na verdade, proselitismo, o que é o evangelismo realmente? E como podemos discernir quando estamos diante do verdadeiro evangelho? ; e,
3 - A importância da liberdade e da sinceridade como fundamentos para uma relação autêntica com Deus.
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1 - Qual é a origem do proselitismo e por que ele acontece?
Se o proselitismo é uma espécie de degeneração do evangelismo, penso que é importante começarmos com a compreensão sobre o que é o verdadeiro evangelho - e então entendermos como ele foi adulterado.
O termo evangelho, que literalmente significa boa nova, ou boa notícia, originalmente tinha a conotação de uma recompensa, ou prêmio, dado a quem trazia uma boa notícia (nada a ver com Jesus ainda). Era uma forma de gratidão pelo valor daquela informação. Com o tempo, o termo deixou de ser utilizado como recompensa e passou a se referir apenas às próprias boas notícias em si. Mas, tanto no seu uso original como naquele que passou a ter, ele nunca se tratou de uma boa notícia qualquer: para ser caracterizada como um evangelho, a notícia precisava ser boa o suficiente a ponto de carregar o poder de estabelecer um antes e um depois; precisava ter a capacidade de transformar situações de insegurança, incerteza e sofrimento, numa realidade que traria alívio, estabilidade e paz. Falava-se em evangelho, por exemplo, para se referir a uma importante vitória militar ou ao nascimento de um novo rei ou imperador.
E foi nesse contexto que Jesus, seus discípulos e, depois, principalmente, Paulo, passaram a utilizar o termo evangelho. Eles se referiam à chegada do Reino de Deus, anunciavam a boa notícia de um reino que carregava um poder sem igual para trazer justiça, paz e alegria a toda a humanidade. E ainda que com suas variações aqui e ali, por quase três séculos essa boa notícia foi vivida e amplamente difundida por aqueles primeiros cristãos - tão difundida a ponto da palavra evangelho ter passado a estar quase inteiramente associada à fé cristã, transformando-se do substantivo comum, evangelho, ao substantivo próprio, Evangelho. Aqueles primeiros cristãos viviam em comunidades pequenas onde partilhavam bens e se apoiavam mutuamente - além de encararem com firmeza e disposição os sofrimentos e as perseguições que lhes eram impostos pelo Império Romano por causa da fé que carregavam.
Mas há um ponto de inflexão nessa história. Quando Constantino se converteu, ainda que pairem dúvidas sobre sua conversão ter sido sincera ou parte de uma estratégia política, e ainda que já existisse algum nível de mutação da fé cristã em uma estrutura religiosa, ele capturou aquele movimento, que era essencialmente puro, e pouco a pouco o remodelou com objetivos que agora serviam à criação e à manutenção de sistemas e estruturas de poder e a lógicas de controle, dominação e exploração.
E então, para avançar muito rapidamente nessa história, a fé cristã, há muito já misturada com o que se fez dela, e com profundas distorções em relação ao exemplo e à mensagem original de Jesus, chegou até nós com o nome de Cristianismo. E esse Cristianismo nos foi apresentado como se ainda fosse um portador fiel daquela boa notícia - daquele Evangelho - inicial.
Neste sentido, nossa missão, hoje, não é diferente da que Jesus teve quando esteve aqui: ter a lucidez para discernir entre verdades e enganos que são anunciados em nome de Deus. Separar joios de trigos… não como pessoas, mas como enganos que crescem infiltrados entre verdades.
Voltemos ao exemplo do proselitismo religioso.
Veja: quem o pratica está ali, em tese, anunciando uma boa notícia - um evangelho, ou Evangelho. Mas observe as palavras que indicam o modo através do qual esse anúncio está sendo feito: as palavras são busca coercitiva, imposição de pena, retaliação, intimidação, repressão e tentativa persistente de persuadir ou convencer alguém a aceitar sua crença ou religião.
Você entende?
É um joio. Bem ali. No meio de um trigo.
Um engano, infiltrado em uma verdade.
Não é interessante?
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2 - Se o evangelismo que nos foi apresentado era, na verdade, proselitismo, o que é o evangelismo realmente? E como podemos discernir quando estamos diante do verdadeiro evangelho?
Eu não sou adepto de fórmulas, mas pensei em algo simples que talvez possa nos ajudar a discernir quando estamos diante do evangelho que Jesus anunciou, ensinou e demonstrou. É o seguinte:
Olhe ao seu redor.
E olhe para si mesmo.
Aonde você encontrar palavras e condutas que explicitamente demonstram amor, justiça, paz, alegria, perdão, reconciliação, liberdade, verdade, gentileza, respeito, esperança, encontro, acolhimento etc., lembre-se: o verdadeiro evangelho é sobre isso! A boa notícia do Reino de Deus é sobre isso. É sobre poder acreditar - e viver - num mundo onde esses valores são uma realidade concreta. Uma realidade tão poderosa a ponto de separar sua vida entre um antes e depois.
Aonde você encontrar palavras e condutas que explicitamente revelam pertencer a dinâmicas de poder, controle, dominação, exploração, humilhação, intimidação, imposição, abuso, desigualdade, injustiça, abandono, arrogância etc., tenha certeza: elas não estão relacionadas com o Evangelho, não importa em nome de quem se apresentem, quão nobre pareçam ou a que religião ou ideologia pertençam. Simples assim.
Você pode expandir as duas listas por aí - já está claro o tipo de palavra que cabe a cada grupo.
Pois bem... agora, feito o primeiro exercício, quero ainda te pedir:
Olhe novamente. Ao redor e para si mesmo.
Mas não mais para as palavras e condutas explícitas. Olhe agora tentando reconhecer os valores que estão por trás delas. Se você tiver dificuldade em reconhecê-los, procure observar o efeito que essas palavras e condutas produzem, tanto no curto como no longo prazo. Novamente, você encontrará valores que estão associados ou ao primeiro ou ao segundo grupo de palavras que listamos. E, com a mesma simplicidade lógica do exercício anterior, você pode separá-los entre aqueles que estão relacionados com o verdadeiro evangelho e aqueles que não estão. Ou entre joios… e trigos.
Dito isso, eu penso que uma boa definição para o verdadeiro evangelismo pode ser a de que ele é a prática de compartilhar a boa notícia do Reino de Deus de um modo que os verdadeiros valores relacionados a ele sejam, necessariamente, respeitados.
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3 - A liberdade e a sinceridade como fundamentos para uma relação autêntica com Deus.
O último ponto que quero compartilhar sobre esta experiência é que descobrir que estávamos certos em relação a um incômodo que nutríamos a respeito de um comportamento, expressão ou interpretação que nos foram apresentados como bíblicos, mas que no fundo não são, tem o efeito especial de nos encorajar a avançar sobre outros incômodos que carregamos. Não para descobrir que estaremos sempre certos, porque é óbvio que não estaremos. Mas logo entendemos que, no fundo, não é sobre estar certo ou não. É sobre a liberdade e a sinceridade serem fundamentos para uma relação autêntica com Deus. E sobre o valor de, a cada descoberta - pelo certo ou pelo errado - percebermos que O conhecemos um pouco mais.
Obrigado pelo seu tempo. Espero ter lhe trazido boas notícias. ;)
(Ah! E as músicas de hoje são boas demais! Vale a pena ouvir)
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Proselitismo, o evangelho inconveniente - da mensagem ao sistema: como a fé virou estrutura. (#05)

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